House, Squads ou Propaganda de Verdade?

No afã de cortar custos, muitos anunciantes estão montando squads internos. Parece moderno. Mas será que é marketing ou só o eco das antigas “house agencies” que fracassaram?

O problema não é interno ou externo. É que quando o squad se limita a templates, automações e não tem repertório externo à empresa, vira um eco da cultura interna. E isso não é suficiente.

A consultoria externa, seja de uma agência de propaganda ou de consultores independentes, é o antídoto para essa bolha.

O que vale mais um squad que só olha para dentro ou uma abordagem externa que faz o cliente olhar para o mundo?

O fluxo de comunicação eficiente precisa da tensão criativa. O cliente entende o negócio, a agência traz repertório e, juntos, constroem campanhas que não só informam, mas inspiram.

A publicidade não é só execução, é o frescor de um olhar de fora que desafia a mesmice. Squads são bem-vindos, desde que não sejam ilhas. A consultoria externa continua vital, trazendo novos horizontes.
E, se o fluxo de comunicação é o objetivo, então o papel da agência ou do consultor é ser o catalisador. Ela traz benchmarks de outros mercados, desafia o status quo e instiga a ir além do óbvio. A eficiência não está só em rodar anúncios, está em criar comunicação que ressoa. Assim, a parceria é clara: o cliente tem sua visão interna, mas a agência traz a visão externa, ampliando perspectivas. No final, a propaganda eficaz é fruto dessa parceria.

A TV não morreu. Ela virou um motor da propaganda integrada.

Durante anos o mercado repetiu um mantra: “a TV morreu”.

Era uma frase bonita, moderna, tecnológica… e profundamente errada.

O problema é que a discussão sempre foi conduzida por métricas de plataforma – cliques, visualizações, impressões – e não por métricas de comunicação. A propaganda passou a ser julgada pelo dedo, não pelo cérebro.

Mas recentemente um estudo conduzido pela empresa americana Dynata, nos Estados Unidos (março de 2025), trouxe de volta uma métrica clássica da propaganda: recall de marca. Isto é, a capacidade do consumidor lembrar que uma marca existe depois de ser exposto à publicidade.

E o resultado é revelador.

Quando as pessoas foram impactadas apenas por redes sociais, o recall de marca ficou entre 5,7% e 17,6%.

Quando a televisão foi integrada à campanha, o recall saltou para 28% a 36,8%.

Não é um pequeno aumento.

É praticamente uma multiplicação da memória.

E aqui está o ponto mais importante: o estudo não prova que a TV substitui o digital. Ele prova algo muito mais interessante: a TV faz o digital funcionar melhor.

O erro do marketing contemporâneo

Nos últimos anos o marketing confundiu meio com função.

Redes sociais passaram a ser tratadas como solução universal. A lógica virou: se gera clique, funciona.

Mas clique não é comunicação. Clique é reação.

O cérebro humano não toma decisões apenas quando vê um botão. Ele toma decisões quando reconhece, confia e recorda. Ou seja: quando existe memória mental da marca.

A propaganda clássica sempre soube disso. O “marketing digital” esqueceu.

O que a pesquisa evidencia é que mídias diferentes não competem entre si. Elas atuam em etapas cognitivas diferentes.

A televisão não é apenas uma mídia de alcance. Ela é uma mídia de codificação mental.

Ela não serve apenas para mostrar, serve para registrar.

O cérebro não é um algoritmo.

O digital é excelente para capturar intenção existente. Mas ele é fraco para criar intenção inexistente.

Uma pessoa raramente procura no Google ou interage com um post de uma marca que ela nunca ouviu falar.

Primeiro a marca precisa existir na cabeça.

Depois ela passa a existir no comportamento.

A TV cumpre justamente essa função: ela constrói a familiaridade inicial. Ela cria reconhecimento. Ela ativa o chamado efeito de mera exposição – quanto mais o cérebro reconhece um estímulo, mais tende a confiar nele.

Quando esse consumidor depois encontra a marca no feed, no YouTube, no banner ou na busca, o algoritmo encontra algo poderoso: um cérebro já preparado.

Por isso os dados da pesquisa são tão fortes. A TV não compete com o digital, ela potencializa o digital.

O Fluxo Integrado de Pontos de Contato

Aqui entramos no ponto central.

O marketing moderno costuma trabalhar com o conceito de funil. Mas o consumidor não vive dentro de um funil.

Ele vive dentro de um ambiente.

Ele vê a TV na sala, o celular no sofá, o feed na cama, o outdoor na rua, o rádio no carro e a busca no trabalho. Na cabeça dele isso não é mídia separada. Isso é uma experiência contínua.

O que a pesquisa da Dynata evidencia é justamente a lógica de um fluxo integrado de pontos de contato.

Cada mídia cumpre uma função psicológica diferente:

  • algumas criam consciência
  • outras geram interesse
  • outras permitem interação
  • outras capturam a ação

A televisão atua principalmente na criação da memória e da confiança inicial. As redes sociais reforçam e estimulam interação. A busca e o clique capturam a decisão.

Quando planejadas isoladamente, as mídias performam pouco. Quando planejadas em fluxo, elas se amplificam.

Ou seja:

O resultado não está em uma mídia. Está na sequência cognitiva entre elas.

Por que a TV pareceu morrer.

A TV não morreu. Quem está moribundo é o planejamento. E isso é perigoso.

Muitos anunciantes abandonaram a televisão não porque ela deixou de funcionar, mas porque passaram a exigir dela uma função que não é a dela: conversão imediata.

Televisão não é botão de compra. É construção de presença mental.

O digital passou a ser mensurado diariamente. A TV, não. Então o mercado começou a acreditar que aquilo que não mede clique não gera resultado.

A pesquisa mostra exatamente o contrário: a TV gera resultado indiretamente, aumentando a eficiência das outras mídias.

Ela não aparece no último clique, mas aparece em quase todas as decisões.

A conclusão

O marketing não é uma soma de mídias. É uma engenharia de percepção.

A televisão continua sendo uma das ferramentas mais poderosas dessa engenharia porque trabalha onde nenhuma outra mídia trabalha com tanta eficiência: memória, familiaridade e confiança.

O estudo da Dynata não ressuscita a TV. (até porque só ressuscita quem tá morto). Ele apenas revela algo que a propaganda sempre soube:

Uma marca não cresce quando as pessoas clicam nela. Ela cresce quando as pessoas lembram dela.

E quando a lembrança existe, todo o resto começa a funcionar melhor.

A TV não morreu. Ela ganhou novas funções e vai bem obrigado.

MARTECH, ADTECH E TOME TECH!

Toda semana surge uma nova sigla, uma nova sopa de letrinhas e uma promessa de milagres nunca vista.
Toda semana alguém promete escala, performance, automação, inteligência e crescimento exponencial.
Toda semana vejo empresas com mais tecnologia do que clareza. E tome tech!

Mas a MarTech (Marketing Technology – tecnologias aplicadas ao marketing) e
a AdTech (Advertising Technology – tecnologias aplicadas à publicidade)
não são vilãs.

São ferramentas poderosas.
O problema começa quando elas viram fim, e não meio.

MarTech sustenta o marketing como sistema: analisa dados, orienta decisões de planejamento, acompanha resultados e dá inteligência ao relacionamento com o cliente.
AdTech cuida da mídia, da distribuição dos anúncios, da performance de campanhas.

Até aí, tudo certo.

O erro está em acreditar que mídia resolve falta de posicionamento, automação substitui estratégia e dashboard compensa ausência de diagnóstico.
Tecnologia acelera.
Mas acelera tudo, inclusive o erro.

Marketing não é campanha. É ciclo.
Um bom marketing começa no diagnóstico, passa pelo planejamento, ganha vida na execução e só faz sentido se houver monitoramento constante.

Nesse contexto, as tecnologias de marketing são imprescindíveis.
Elas funcionam como um sistema de observação em tempo real.
Acompanham o comportamento do público, cruzam dados, revelam padrões, apontam desvios e oportunidades.

Mas é preciso deixar algo muito claro:
as ferramentas não são autônomas.
Pelo menos, não ainda.

Elas não pensam sozinhas.
Não definem estratégia.
Não fazem escolhas difíceis.
Elas respondem à inteligência humana que as opera.

Integração gera fluidez. Acúmulo gera ruído.
Marketing eficiente não nasce da quantidade de plataformas,
mas da integração entre ferramentas, ambientes e decisões.

Quando dados não conversam, quando áreas não se falam, quando cada canal puxa para um lado, o resultado não é tecnologia. É atrito.

Ferramentas precisam trabalhar em conjunto, servindo a um projeto maior, coerente e contínuo.
Onde houver ponto de contato, entra a marca. Onde entra a marca, precisa haver coerência. Onde não há coerência, nenhuma tecnologia salva.

O novo vício do marketing moderno
Empresas cheias de:
• plataformas que não se integram
• dados que não viram decisão
• campanhas que não geram aprendizado
• automações que repetem erros em escala

Tudo isso custa caro. Financeiramente e estrategicamente.

Marketing não é uma pilha de softwares. É uma atitude estratégica em movimento.
Ferramenta sem diagnóstico vira chute. Mídia sem planejamento vira desperdício. Automação sem monitoramento vira cegueira.

No fim, a pergunta não é: qual tecnologia você usa?
É quem está pensando o marketing? Quem está interpretando os dados? Quem está decidindo quando mudar o rumo?

Tecnologia é fantástica e imprescindível, desde que esteja a serviço da estratégia, não no comando dela.
E estratégia nenhum software faz sozinho (ainda).