“Social Media” não é social nem mídia. Pronto, falei.

Vou começar pelo desconforto — porque marketing que não provoca, adormece.

Chamamos de social media algo que não é social e não é mídia. E repetimos isso há anos como se fosse um fato neutro, técnico, inquestionável. Não é.
É uma escolha semântica conveniente. E muito bem pensada.

O que é mídia, afinal? Antes de romantizar feed, precisamos lembrar o básico. Mídia, no conceito clássico, é um canal predominantemente unidirecional, com inventário delimitado, distribuição previsível e auditoria externa independente. TV, rádio, jornal, revista. Você compra espaço, planeja, mede com terceiros. Sem auditoria externa, não existe mídia plena. Existe plataforma.

E o que é social? Social não é curtida. Social não é emoji. Social é exposição igualitária, possibilidade real de interação, ausência de curadoria hierárquica. Todos podem falar, todos podem ser vistos. A relevância emerge da relação — não da verba.

Onde as chamadas redes sociais falham? Elas não são mídia porque não garantem entrega, não oferecem previsibilidade, não têm auditoria externa real. E não são sociais porque o alcance é assimétrico, a visibilidade é curada por algoritmo, quem paga fala mais. Ou seja, não há igualdade, não há neutralidade, não há praça pública.

“Social” e “media” são álibis semânticos. As plataformas usam esses termos como aval para fingir imparcialidade, liberdade de opinião e alcance mensurável. Quando convém, dizem que são neutras.

Quando vendem anúncios, dizem que são mídia eficiente. Quando o conteúdo causa dano, dizem que não são responsáveis. Editor sem responsabilidade. Mídia sem auditoria. Praça pública privatizada.

O melhor negócio do mundo: elas não gastam um centavo para criar conteúdo, não assumem risco editorial, não investem em curadoria humana, controlam a distribuição, capturam dados e ainda operam com métricas definidas por elas, medidas por elas, auditadas por elas. O árbitro é dono do campo. E vende ingresso.

Então, o que elas são, afinal? São plataformas proprietárias de mediação algorítmica, mercados de atenção, sistemas de estímulo comportamental, muito mais próximas de uma TV programática emocional do que de mídia ou espaço social.
O erro do marketing é tratá-las como estratégia central. Rede social é ponto de contato, não destino. É canal tático, não visão de longo prazo. Quando vira protagonista, o marketing perde profundidade.

Conclusão (sem pedir desculpas): Chamar essas plataformas de social media não é inocente. É conveniente. Enquanto aceitarmos essa nomenclatura sem reflexão, aceitaremos métricas frágeis, confundiremos barulho com relevância e chamaremos dependência de estratégia.

Marketing de verdade não vive de feed. Vive de fluxo, coerência, intenção e responsabilidade.

As agências de Propaganda morreram e a TV aberta subiu no telhado.

Só que não. Essa é a historinha que uma turminha digital conta pra bois (e outros bichos) dormirem.
Nos últimos anos, especialmente depois da pandemia, espalhou-se pelo mercado uma narrativa tão conveniente quanto falsa:

  • “Agência não faz mais sentido.”
  • “TV aberta morreu.”
  • “Agora é tudo digital.”

Quem repete isso geralmente tem duas coisas em comum: pouca vivência de marketing (e na propaganda) de verdade e muito interesse em vender soluções natimortas que pretendem enganar anunciantes e profissionais iniciantes desavisados.

Vamos aos fatos.

Se a TV aberta morreu… alguém esqueceu de avisar Netflix, Amazon, Mercado Livre, Apple, Google, Microsoft, WhatsApp, iFood, Magalu, Samsung, Itaú, Bradesco e praticamente todas as grandes marcas globais e nacionais. Porque todas elas continuam anunciando na TV aberta. Gozado, né?

Um monte de empresa nativa digital bilionária, data-driven, cheia de PhDs em marketing, anunciando em um meio offline que morreu. Será que eles sabem de algo que você não sabe? Ou será que a TV aberta… não morreu coisa nenhuma?

A verdade é bem menos glamourosa do que os gurus gostam de contar. TV aberta não morreu. Rádio não morreu. Outdoor não morreu. Agência não morreu.

O que morreu, ou deveria ter morrido, é a ideia de que marketing se resume a postar conteúdo, rodar anúncio e esperar milagre.

Outro truque clássico dessa narrativa é comparar TV aberta com “a internet”, como se fossem coisas equivalentes. Não são. Isso é erro técnico básico (ou má-fé mesmo).

Internet não é um meio único. É um ecossistema caótico de canais diferentes que se multiplicam como coelhos: streaming, redes sociais, mídia programática, search, display, vídeo, e-mail marketing, site, marketplace… Cada um com sua lógica, papel e impacto distintos.

Comparar TV aberta com “a internet” é como comparar aviação com transporte (um é o canal ou modal, o outro é o ambiente ou sistema). A comparação não faz sentido, mas ajuda a vender simplificação disfarçada de modernidade.

Share de Investimento Publicitário no Brasil em 2024
TV Aberta — 36,5%
Redes Sociais —
Vídeo Online — 13,0%
Busca (Search) — 11,0%
Display — 8,0%
TV por Assinatura — 5,7%
TV Conectada (CTV) — 3,0%
Marketplaces — 2,5%
E-mail Marketing — 0,3%

Fontes: CENP-Meios 2024 | IAB Brasil/Kantar (Digital AdSpend) | Comscore | Kantar IBOPE Media

Mas a confusão digital não provocou apenas excessos conceituais. Ela produziu efeitos estruturais profundos no mercado publicitário, especialmente fora do eixo das grandes contas e das grandes agências.

De repente, surgiu uma procura quase desesperada pelas chamadas “agências digitais”. Muitas delas não eram agências. Eram social medias trabalhando de casa, com computador pessoal, ferramentas prontas, pouco repertório e nenhuma vivência de processo. Ainda assim, passaram a vender a ideia de que tudo se resolve na rede social.

Isso sacudiu o mercado de forma desigual.

As grandes agências pouco sentiram. Continuaram atendendo grandes clientes, geridos por profissionais de marketing que sabem, porque vivem isso na prática, que marketing não é ação pontual. É processo contínuo. Diagnóstico, planejamento, criação, produção, monitoramento e correção de rota não são luxo. São partes do método.

Já as pequenas e médias agências foram empurradas para um limbo perverso. De uma hora para outra, passaram a concorrer não com outras agências, mas com social medias, freelancers e empresas que se autodenominam “agências de marketing digital”, sem agenciar nada, sem intermediar mídia, sem assumir responsabilidade estratégica.

O discurso era sedutor: mais barato, mais rápido, mais “moderno”. A entrega, na maioria das vezes, era frágil.

Templates passaram a substituir pensamento. Automação passou a substituir estratégia. Volume passou a ser confundido com valor. Postagem virou sinônimo de marketing.

Marketing não começa no post. Não termina no clique. E não nasce de atalho.

Ferramentas ajudam. Plataformas aceleram. Automação escala. Mas nada disso substitui pensamento estratégico.

Existem profissionais bons e sérios nessas “agências digitais”, mas só pode se chamar de agência a empresa que intermedia a compra de mídia. Do contrário, é assessoria ou consultoria. Todos (os que levam a coisa a sério) merecem respeito e consideração. Mas a classificação como agência é uma distorção.

Talvez a maior ironia desse momento seja esta: quanto mais se fala em “novo”, mais se ignora o básico.

E o básico continua o mesmo. Com a mídia certa, no lugar certo, para o público certo. Integrando o que é físico e o que é digital. Sem misticismo. Sem truque.

Nos próximos meses, vou aprofundar esses e outros temas, inclusive os mais incômodos, em um que estou finalizando. Algumas certezas de mercado vão ser questionadas. Algumas narrativas convenientes vão cair. Vou ouvir desaforo, mas faz parte. O que agride mesmo os ouvidos é a quantidade de besteira que temos ouvido dos “Gurus Milionários”.

Se você se interessa por comunicação, estratégia, publicidade, propaganda e marketing de verdade, te convido a acompanhar meus conteúdos no LinkedIn, no Instagram, no Facebook (@alexandre.meinhardt) e no blog da Groove (https://groove.com.br/posts).

Spoiler: nem a propaganda morreu, nem a TV subiu no telhado. Mas tem muita gente vendendo essa história como se fosse verdade.

E isso, cedo ou tarde, cobra seu preço.

#chegadehastag

Nadal numa quadra de tênis. Vai encarar?

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Como a China preferiu mudar o esporte – e a quadra – para disputar (e vencer) o jogo da indústria automotiva.

Trocar o saibro pela quadra vizinha

Imagine estar frente a frente com Rafael Nadal. Se a disputa for tênis, o placar já nasce 6-0, 6-0 contra você. Agora proponha um jogo novo, “Foot-Pong”, em outra quadra, com marcações inéditas e direito a chutar a bola. A vantagem centenária do espanhol evapora, todo mundo começa do zero.

Foi exatamente esse salto estratégico que as montadoras chinesas deram. Em vez de brigar no terreno dos motores a combustão – dominado por patentes europeias, americanas e japonesas – trocaram de quadra, fizeram do carro elétrico o novo esporte global.

 Os buracos da quadra: terras-raras e baterias

Nesse piso diferente, a China tem o gramado perfeito: controla cerca de 85 % da capacidade mundial de refino de terras-raras, metais sem os quais não há ímãs para motores elétricos.

E a bola? Virou elétron. A Blade Battery da BYD, de química LFP, já domina os elétricos chineses e estreia segunda geração em 2025 com recarga prometida em menos de 12 minutos e custo 15 % menor.

 Treino em casa, plateia de milhões

Enquanto o Ocidente discutia se “EV pega ou não pega”, o mercado interno chinês virou um laboratório lotado de torcedores: 40,9 % dos carros vendidos por lá em 2024 já são “novas energias” (elétricos puros + híbridos plug-in).

Com a torcida aquecida, o país exportou 5,86 milhões de veículos no mesmo ano – quase 1,3 milhão totalmente elétricos. Quem joga tanto em casa tende a chegar ao campeonato mundial sem medo de torcida adversária.

 Quando o produto fala mais alto que o comercial

Um hatch chinês de entrada hoje roda cerca de 400 km por carga, recebe atualizações OTA como smartphone e já oferece piloto semiautônomo de fábrica. Nesse cenário, a campanha publicitária só precisa narrar o que o consumidor comprova no test-drive . Só é exagero, é claro que a propaganda estratégica e bem excutada é imprescindível.

 O tropeço europeu no preço

Basta olhar o MG 4: lançado no Velho Continente a partir de € 28 mil, com cinco estrelas Euro-NCAP e desempenho digno de hot-hatch, ele fez muito francês e alemão coçar a cabeça antes de assinar outro leasing a diesel.

 O apito do árbitro e o drible CKD

A União Europeia reagiu com tarifas de até 45,3 % sobre elétricos “made in China”. Só que o dragão já tinha outro truque: montar carros em kits semi-desmontados (CKD) na Hungria, na Turquia, no México, na Bahia… e seguir marcando gol enquanto a regra é reescrita.

 Marketing na veia – e em escala continental

O que fascina não é apenas uma ou duas marcas brilharem, mas um país inteiro alinhar política industrial, cadeia de suprimentos, design de produto e storytelling numa mesma direção. A China combinou insight de mercado (“vamos mudar de esporte”) com execução impecável (“vamos construir a nova quadra para todo mundo jogar”).

Isso é Marketing purinho: identificar uma oportunidade, criar uma proposta de valor distinta, remover fricções e contar a história certa – da mineração ao showroom. Só que, desta vez, o “departamento de marketing” não foi uma agência nem uma montadora isolada. Foi a própria China, atuando como orquestra sinfônica.

Se a sua empresa ainda insiste em desafiar Nadal no saibro, talvez seja hora de buscar uma quadra diferente. Afinal, jogo novo, regras novas… placar novo.

Ah! E não se espante se o Nadal aparecer por aí acelerando um elétrico made in china.